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Atentado Manchester Arena (vítimas e ídolos)

O recente atentado ocorrido no pavilhão Manchester Arena (Reino Unido), logo após o show de uma cantora Ariana Grande, levanta diversas questões. Desde a segurança em locais públicos até os bastidores de atentados terroristas. Entre choros, lamentos de familiares, notícias sensacionalistas, declarações que chegam ao relato de que um dos muitos envolvidos estaria sendo investigado pelo Serviço de Inteligência Britânica em contraponto a outra declaração de que foi apenas um ataque suicida de um único indivíduo que, por motivos óbvios, morreu na explosão.

Seja qual for o número de envolvidos, seja um ataque terrorista ou suicida, a realidade é que, até o momento, se tem notícia de vinte e duas vítimas fatais e quase sessenta feridos. O resultado é parcial, pode aumentar o número de vítimas. E, enquanto todos se voltam ao ataque em si, eu relembro um polêmico artigo que escrevi por volta de 1999 (publicado em portais europeus) e que reformulei em 2012 para publicação impressa exclusiva pela Revista Psique (Brasil) que analisa o que leva as pessoas a criarem ídolos. O que move uma pessoa numa admiração tão profunda (por alguém que canta ou dança ou interpreta, mas não faz parte de sua realidade) ao ponto de declarar (no twitter) “Tão entusiasmada por te ir ver amanhã”. E ser identificada como primeira vítima fatal no dia seguinte?

Destino? Fatalidade? Ou algo que analisei neste artigo e que te convido a ler. E friso que não estou criticando o ocorrido. Nem culpando a artista pela fatalidade. O que quero é apenas mostrar a necessidade de um novo entendimento do mundo, especialmente dos adolescentes pelos pais e vice-versa. E que, além deste terrível atentado, é preciso refletir sobre:

 

A razão de se criar ÍDOLOS – Por Lou de Olivier – utilidade pública (especial para Revista Psique Ciência e Vida) – reproduzido exatamente como na versão impressa:

 

A fuga da realidade mostra como nos esquivamos do enfrentamento de frustrações, um comportamento cada vez mais frequente, que faz o sucesso das telenovelas e dos consultórios.

O ator de TV ou cinema entra em cena e, sem que nada diga, é calorosamente aplaudido. Se sorrir ou acenar ou ainda jogar beijos, pode levar a plateia à loucura. O cantor que, às vezes nem canta tão bem, começa a dançar e as garotas já se excitam. Se ele fizer passos sensuais e/ou rebolar um pouco, lá estão elas gritando histéricas. Em meio a essa parafernália, quem vai perceber se o sujeito canta bem?

Pessoas até comuns, que têm seus 15 minutos de fama, e despem-se para fotos em revistas especializadas, bastam para que as edições esgotem-se rapidamente.

E o que dizer dos fãs que se emocionam e chegam aos prantos em aeroportos à espera de seus “ídolos”? Deixam, às vezes, de comprar algo que realmente necessitam para adquirir o recente lançamento ou o ingresso para um show, ocasião em que serão espremidos, destratados, acotovelados, inclusive correndo risco de vida em meio a uma multidão em transe. Mesmo assim, os fãs continuam espalhando aos quatro cantos que “amam” artistas com os quais não têm nenhuma intimidade, muito menos motivos para amar. Mas de onde vêm esses sentimentos desenfreados?

Talvez se falássemos sobre a histeria coletiva, amplamente estudada, tanto por Freud quanto por Jung, podemos transcorrer sobre algumas respostas a esta questão, mas o debate acerca deste tema é complexo, e precisaremos de um novo artigo para isso.

O palco é projetado de tal forma que impõe distância. Seja qual for seu formato (italiano, grego, etc.), sempre é colocado com certa distância, num plano geralmente mais alto (ou ao menos destacado) que as cadeiras da plateia. Aí vêm os sons e luzes que emitem mensagens e, de certa forma, despertam fantasias.

O cinema também, com sua tela gigante colocada a distância, transforma os atores em seres totalmente intocáveis. Tanto que, quando a tela se apaga e as luzes acendem-se, muitos se frustram ao terem de volta a realidade de forma tão rápida. No teatro essa frustração geralmente é substituída por excessivos aplausos, de forma prolongada, o que obriga os atores a voltar à cena. É uma forma inconsciente de prolongar o momento, forçando os atores a continuarem visíveis, ao menos para agradecer os insistentes aplausos.

A TV, então, dispensa comentários, com sua fábrica de novelas e comerciais martelando o cérebro do público. E o bombardeio é tão poderoso que acaba fixando a ideia de que tudo o que aparece na telinha é perfeito, amável, desejável, soberano e deve ser imediatamente consumido.

Mas, além disso, existe outro fator: a necessidade inconsciente de que o ser humano tem de criar e sustentar ídolos. Até mesmo para melhor viver ou, ao menos, sobreviver. Quando criança, a necessidade de liberdade e autonomia faz com que sonhemos com o dia em que estaremos livres das imposições de nossos pais e sociedade, e transferimos nossos desejos a algum super-herói do momento, ou talvez, numa transferência mais masoquista, a algum mártir desses sofríveis contos de fadas que atravessam os tempos. Lembrando que, neste período, a criança passa pelas fases simbióticas em que ela se imagina um mesmo ser com a mãe e, na sequência, percebe sua mãe como um ser independente dela, dando início ao objeto transicional e edipiano ao genitor do sexo oposto, fazendo dele uma espécie de ídolo, pelo menos por este período da vida.

 

A TV, ENTÃO, DISPENSA COMENTÁRIOS, COM SUA FÁBRICA DE SONHOS MARTELANDO O CÉREBRO DO PÚBLICO. E O BOMBARDEIO É TÃO PODEROSO QUE ACABA FIXANDO A IDEIA DE QUE TUDO O QUE APARECE NA TELINHA É PERFEITO

 

No início da adolescência, isso muda completamente de figura. Ainda sonhamos com a liberdade, mas, também brigando com o corpo/mente em transformação, sonhamos com ídolos de carne e osso, mas que, protegidos pelo escudo da fama, nos sejam intocáveis e, portanto, não nos causem mal. Já que, nesta fase, estamos frágeis e qualquer mágoa pode nos desestruturar. Dessa forma, podemos amar de forma plena, com uma entrega total, sem corrermos o risco do abandono. Afinal, em nossa imaginação, nosso ídolo age e reage da forma como estipulamos e jamais nos trairá ou abandonará, já que nós estamos no comando da relação.

Na passagem da adolescência para a juventude, o normal é que comecemos a construir uma relação mais verdadeira, então passamos a flertar, “ficar”, namorar, e aí vêm as primeiras decepções com a realidade. Então, seguimos nossas vidas, consumindo revistas de fofocas televisivas ou fotos sensuais, vivendo as cenas de um filme como se fizessem parte de nossa vida. E a vida real? Esta pode esperar ou até acontecer em paralelo, desde que não atrapalhe a novela…

Podemos entender a fuga da realidade como uma tentativa de amenizar a frustração, ou seja, diante de algo que não gostamos, ou não nos satisfaz, procuramos algo que, apesar de ilusório, nos agrada. Nos deparamos então com a velha batalha entre o princípio da realidade e o princípio do prazer. Freud demonstrou que tanto os sonhos quanto as fantasias são processos visando avaliar a angústia.

A grande realidade é que tanto público quanto artistas seguem inconscientes desse jogo estabelecido em função da fama. A relação intocável firmada entre os dois parece ultrapassar o tempo; mudam os ídolos e o público, mas a relação continua a mesma. Provavelmente nunca mude. É o círculo da mente humana que se adapta à fantasia da época e segue sua fuga desenfreada das frustrações reais!

 

Lou de Olivier é psicopedagoga, psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental. Precursora da multiterapia e criadora do método terapia do equilíbrio total/universal, ministra workshop Corpo Mente Movimento. É autora de 14 textos teatrais e 8 livros didáticos. Site www.loudeolivier.com

 

Fonte – Revista Psique Ciência e Vida – Ano VI – Novembro 2012 –  Edição 83 – paginas 22 e 23

 

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